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Terceira idade

A inclusão digital da população idosa

Profa. Dra. Vitória Kachar

Resumo

O presente artigo é uma adaptação do capítulo 2 do livro "Terceira Idade e Informática: aprender revelando potencialidades". Nele são discutidas a crescente proliferação das tecnologias, a progressiva dependência da sociedade e, consequentemente, a transformação dos comportamentos, criando a necessidade de conhecimento e domínio por todos, inclusive pelas pessoas da terceira idade. Os estudos apontam que o interesse dos idosos pela aprendizagem da tecnologia computacional está centrado no desejo de incluir-se no progresso social. Também, são discutidos neste estudo, o curso de introdução a informática para a terceira idade, a abordagem metodológica para aprendizagem do novo recurso e os atrativos e benefícios na vida do idoso.

As tecnologias gerando transformações sociais e subjetivas

A tecnologia invadiu as casas, empresas, instituições de todos os tipos, a sociedade como um todo está se tornando informatizada. Os recursos da imprensa, rádio, TV, telefone, fax, vídeo, computador e Internet são disseminadores de culturas, valores e padrões sociais de comportamento. Cada vez mais o ser humano cria dependências pelos recursos eletrônicos, que passam a coexistir no dia a dia de todos. Com isso as mudanças transparecem nas diversas dimensões de viver na sociedade tecnologizada. Esses artefatos fazem com que a comunicação seja intermediada pela máquina e não pela voz humana.

Com a sofisticação dos recursos da tecnologia torna-se maior a amplitude de acesso à informação, assim como a qualidade de veiculação e recepção se mostra em diferentes níveis de mídia. O acesso fácil e rápido, quase que instantâneo, à informação relativiza a questão do tempo e do espaço. As informações infiltram-se por todos os lados, quase que não precisamos ir atrás delas, pois elas passam a se apresentar a nós exaustivamente, intervindo nas nossas relações e comportamentos. O ambiente familiar, antes convergente e constituído em volta das figuras da mãe e do pai, fica diluído entre os mitos eletrônicos que são endeusados e assumem a tutoria da infância.

Nossas concepções de mundo estão sendo delineadas pelas informações que recebemos por meio das mídias eletrônicas. Uma fábrica de sonhos e emoções que invadem a vida dos indivíduos, conformando subjetividades, interiorizando comportamentos-modelo da sociedade, atuando no inconsciente do sujeito espectador que capta as mensagens dentro dessa visão que é uma versão do mundo fragmentada e filtrada pela tela.

Para Lomas, a mídia age sob a informação textual, verbal e das imagens para persuadir e manipular o espectador com a intenção de "fazer saber, fazer crer, fazer parecer verdade, fazer sentir" (2001: 149).

Na sociedade contemporânea a socialização incorpora as relações produzidas pela rede de interconexões de pessoas entre si mediadas pelas tecnologias da comunicação e informação.

A mídia e a publicidade focam perspectivas da realidade intervindo na construção de identidade, culturas e relações pessoais. Há uma emergente necessidade de preparar cidadãos que saibam ler, interpretar, analisar criticamente as informações recebidas e selecionar as significativas para si e para o uso coletivo. A população de um modo geral está carente de recursos técnicos e educacionais para enfrentar e lidar com um futuro que caminha na ambigüidade do local e global, do espaço físico e virtual.

A geração nascida no universo de ícones, imagens, botões e teclas transita na operacionalização com desenvoltura na cena visionária de quase ficção científica, mas outra, nascida em tempos de relativa estabilidade, convive de forma conflituosa com as rápidas e complexas mudanças tecnológicas, cuja progressão é geométrica.

O analfabeto do futuro será o indivíduo que não souber decifrar a nova linguagem gerada pelos meios de comunicação (Pretto, 1996). A nova geração é introduzida nesse universo desde o nascimento e por isso sua intimidade com os meios eletrônicos ocorre numa relação de identificação e fascinação.
Por outro lado, a geração de idosos de hoje tem revelado suas dificuldades em entender a nova linguagem e em lidar com os avanços tecnológicos até mesmo nas questões mais básicas como os eletrodomésticos, celulares, caixas eletrônicos instalados nos bancos. Conseqüentemente, aumenta o número de idosos iletrados em Informática, ou analfabetos digitais, em todas as áreas da sociedade.

Esse novo universo de relações, comunicações e trânsito de informações pode se tornar mais um elemento de exclusão para o idoso, tirando-lhe a oportunidade de participar do presente, marginalizando-o e exilando-o no tempo da geração anterior, relegando à função social de memória, de passado. Para inserir-se na sociedade tecnologizada precisa ter acesso à linguagem da Informática, dispondo dela para liberar-se do fardo de ser visto como um velho ultrapassado e descontextualizado do mundo atual.
A população idosa aumentou muito nos últimos tempos e, gerando uma demanda por cursos direcionados para o ensino dos recursos básicos sobre o computador.

Razões que levam a terceira idade a aprender Informática

Na pesquisa que realizamos com o público da Universidade Aberta para a Maturidade da PUC de São Paulo, há uma análise sobre o interesse da terceira idade em freqüentar as aulas do curso optativo de Introdução a Informática. Algumas das razões apontadas foram a necessidade de atualização e de sentirem-se incluídos na sociedade.

A palavra atualização tem sua raiz em atual, um adjetivo, e origina-se em ativo ‘que age', 'que ocorre no momento em que se fala, no presente'. O movimento de acompanhar o momento presente, de inserir-se na dinâmica atual, de sentir-se incluído, envolvido no processo de desenvolvimento da sociedade e conectado ao mundo moderno, associado a informação e comunicação.

A intimidade com os recursos eletrônicos torna-se o passaporte para modernidade, "obrigatório para os novos formatos de cidades e modelos de vida que estão sendo instaurados" (Côrte e Couto, 1999:10-11).
A tecnologia está em destaque, dá status para quem domina os recursos computacionais. O computador pode ser tomado como uma metáfora de entrada na era da Informática.

A nova linguagem já está circulando nas conversas corriqueiras. Há uma cobrança implícita para que todos estejam alfabetizados com essa linguagem icônica.

O adulto de hoje faz parte de uma geração pré-icônica, por isso a dificuldade de fazer a leitura multidimensional que os recursos tecnológicos exigem. Ele observa o mundo e o progresso, dá-se conta do momento e vislumbra o futuro com a Informática e, para não se sentir à margem, procura se envolver com este universo.

Vendo a tecnologia instalando-se cada vez mais no processo de vida das pessoas, a decisão é enfrentar, pois a alternativa é adentrar esse mundo ou ficar excluído. Acompanhar a evolução tecnológica e os progressos na comunicação, para diminuir o isolamento, sentir-se parte integrante deste novo mundo (Sá, 1999).

É sair da imobilidade, estar atento ao que acontece ao redor evitando o encolhimento em seu próprio mundo. Como destaca Novaes:
Envelhecer exige uma disposição particular de alerta, daí a importância da constante aquisição de conhecimentos para não restringir as dimensões de seu universo e do significado de sua existência (1997: 55).

A mídia coloca todas a vantagens de entrar nesse novo universo. A tecnologia começa a se tornar uma necessidade. É forte o sentimento de exclusão gerado pela tecnologia em todos os âmbitos sociais, mas na terceira idade é mais um elemento dentre outros.

Panorama da terceira idade que possui o computador

No site www.seniornet.com há uma pesquisa nacional americana sobre idosos e o computador, do qual foram extraídos alguns dados quantitativos de análise. A pesquisa "Older Adults and Computers: report of a National Survey", de Richard Adler (1996), foi feita entre 1994 e 1995, por meio de entrevistas telefônicas com uma população de americanos de 55 anos e mais. Foram entrevistados 600 pessoas ao acaso e 100 proprietários de computador, resultando num total de 275 proprietários de computador. Os resultados da pesquisa mostraram alguns aspectos da relação da terceira idade com o computador:

Proprietários:
30% dos americanos entre 55 e 75 anos possuem computador

Sexo
Mais homens (38%) proprietários de computador que mulheres (23%).

Formação escolar
Idosos com graduação (53%) e 2º grau incompleto (7%).

Trabalhadores versus Aposentados
Dos que possuem computador, os idosos que trabalham (34%) estão em maior número do que os aposentados (27%).

Como aprendeu sobre o computador
40% dos homens aprenderam sozinhos, 21% aprenderam no trabalho,
Maior número de mulheres 21% - tiveram aulas; homens - 11%; 18% das mulheres aprenderam com um amigo versus 11% dos homens.

Como são utilizados os computadores

  • 84% - escrever, processador de textos

  • 60% - jogar com games

  • 54% - gerenciar as finanças pessoais

  • 34% - arte gráfica

  • 31% - administrar os negócios em casa

  • 25% - comunicação on-line

  • 19% - pesquisa genealógica.

Este estudo sugere que, daqui a alguns anos, a penetração de computadores entre a população idosa será indistinta da população geral e que a imagem dos indivíduos idosos resistentes ao computador terá se transformado (Adler, 1996).

Os investimentos e esforços com o objetivo de romper a distância entre a pessoa da terceira idade e a tecnologia têm apresentando resultados gradativos e efetivos. A própria tecnologia tem se tornado mais amigável, flexível e fácil de operar, exigindo conhecimentos técnicos básicos e mínimos para a sua manipulação pelo usuário leigo.

Cursos de Introdução à Informática para terceira idade

Com o envelhecimento de uma camada da população, passou-se a oferecer curso de Informática ao usuário idoso. Estudos nessa área, para compreender melhor as mudanças cognitivas na terceira idade, discutem os efeitos do envelhecimento na aquisição e aplicação dos novos recursos tecnológicos.
Algumas investigações sobre o ensino do computador baseiam-se na pesquisa da cognição durante o processo de envelhecimento. Esses estudos auxiliam na elaboração do planejamento de ensino e implementação de cursos básicos de Introdução à Informática, especificamente, voltados para a terceira idade. Eles apontam a necessidade da estruturação de propostas de acordo com as necessidades do idoso, no que concerne ao processo cognitivo, atendendo ao ritmo, que é mais lento, aos recursos que se tornam mais limitados e às deficiências sensoriais que acometem a velhice (Jones e Bayen, 1998).

As pesquisas incentivam a criação de ambientes de ensino de Informática próprios para a terceira idade, na busca da compreensão e criação de uma abordagem de interação com a máquina de acordo com as necessidades e as condições físicas. São discutidas estratégias de ensino para facilitar o processo de apreensão da tecnologia, mas a perspectiva está pautada no treinamento e no desenvolvimento da habilidade operacional e na estimulação das atividades intelectuais. O computador apresenta-se mais como um fim em si mesmo, um objeto de aprendizagem - aprender sobre o computador -, do que como um recurso para o desenvolvimento das diversas potencialidades do indivíduo.

Alguns estudos analisam a interface homem-máquina voltada para o perfil de usuário da terceira idade. Na Internet um site traz um estudo interessante sobre o idoso e a relação de aprendizagem com o computador, do qual foram extraídas algumas questões: "Coming of age: the virtual older adult learner", por Donald A. King (1997), apresentado numa conferência de Educação Continuada no Canadá. O estudo pretendeu identificar as necessidades de aprendizagem das pessoas de 55 anos ou mais para ajudá-las a superar seus medos e resistências às novas tecnologias. A pesquisa contou com uma revisão de área para responder à pergunta: como a terceira idade aprende as novas tecnologias. Alguns pontos de destaque:

  • as pesquisas sobre idosos e computadores ainda são iniciais;
  • instrução assistida por computador é bem aceita pelos idosos;
  • idosos apresentam muitas razões para aprender as novas tecnologias;
  • idosos apresentam dificuldades específicas para aprender.

As dificuldades para a aprendizagem do computador pelos idosos podem ser superadas, utilizando-se estratégias específicas como:

  • seguir etapas gradativas de aprendizagem;
  • auxílio na medida da necessidade;
  • seguir no próprio ritmo;
  • freqüentes paradas;
  • boa iluminação;
  • caracteres e fontes grandes;
  • classes pequenas;
  • mais tempo para a execução das tarefas e repetição delas.

Os resultados da pesquisa de King (1997) apontam especificações sobre o tipo de hardware e software e técnicas de ensino:

Hardware - atenção deve ser dada a:

  • Tamanho do monitor e iluminação;
  • Teclado com design especial;
  • Mouse com design especial;
  • Qualidade de impressão;
  • Tamanho e cor da área de trabalho no monitor;
  • Qualidade do assento.

Software - recomenda-se:

  • começar com jogos, Internet e e-mail;
  • ter um bom processador de textos;
  • criar home page para os idosos;
  • disponibilizar ajuda on-line

Técnicas de Ensino - idéias para otimizar o ensino:

  • ter outros idosos para ajudar;
  • pedir aos idosos que escrevam e avaliem o currículo;
  • utilizar as experiências de vida dos idosos;
  • preparar material de apoio com caracteres grandes e fortes;
  • manter um ritmo lento e aberto para a troca.

Para King (1997), o advento da tecnologia provê a pessoa da terceira idade com oportunidades para se tornar um aprendiz virtual, fornecendo educação continuada, educação a distância, estimulação mental e bem estar. Ela possibilita ao indivíduo estar mais integrado em uma comunidade eletrônica ampla; coloca-o em contato com parentes e amigos, num ambiente de troca de idéias e informações, aprendendo junto e reduzindo o isolamento por meio da experiência comunitário.

Alguns sites da terceira idade

Alguns sites apresentam programas e universidades abertas voltadas para a terceira idade, enquanto outros procuram oferecer diversas informações e atualidades, criando uma comunidade virtual de relações e comunicação, tirando o idoso do isolamento em que muitas vezes se encontra recluso, em sua casa, no seu aposento ou mesmo, em asilos.

Sites voltados para a Terceira Idade

http://www.ficarjovemlevatempo.com.br
http://www.idademaior.com.br
http://www.idosoamado.com
http://www.maisde50.com.br
http://www.techway.com.br/techway/revista_idoso
http://www.unati.uerj.br
http://www.unifesp.br/uati
http://www.usp.br/prc/3idade/index.html
http://www.velhosamigos.com.br

Outros oferecem um espaço virtual para idosos interessados em aprender, trocar informações e discutir sobre os recursos informáticos, ampliando o conhecimento sobre as ferramentas tecnológicas, no que diz respeito a software, hardware, acessórios, multimídia e Internet. Geralmente, oferecem suporte a dúvidas, problemas técnicos e operacionais e outros procedimentos sobre o equipamento.

Nos sites são encontrados diversos espaços para notícias, grupos de interesses, quadro de avisos, guias de orientação sobre computação. Alguns, sem fins lucrativos, fornecem opções para discussão sobre educação e suporte ao trabalho, apresentando artigos e pesquisas sobre o tema Tecnologia e Idoso. Estes são mais comprometidos com aspectos científicos e educacionais, incluindo centros de ensino de Informática para idosos, fornecendo conferências anuais e relatórios trimestrais sobre projetos nessa área.

Sites sobre Informática para Terceira Idade

http://web.mit.edu/agelab
http://www.crm.mb.ca/crm/crcc/index.html (The Creative Retirement Computer Club)
http://www.elderweb.org
http://www.seniornet.org
http://www.seniornet.com.au
http://www.seniorscan.ca

Existem vários sites que são mais direcionados para pesquisas, estudos, artigos, reportagens, orientações sobre o envelhecimento, abrangendo a área de Gerontologia e Geriatria.

Sites sobre a Terceira Idade:

http://www.aging.it
http://www.elderweb.com
http://www.geron.org
http://www.pucrs.br/igg
http://www.sagg.org.ar
http://www.sbgg.org.br
http://www.ufrgs.br/3idade

Terceira idade e interação com o computador

Algumas pesquisas relatam diferenças na aprendizagem da nova tecnologia, discutindo os efeitos das atitudes, ansiedades e potencialidades cognitivas na apropriação do computador.

Em duas pesquisas foram comparados os resultados de dois grupos etários. Num estudo (Westerman e Davies, 2000) com grupos de adultos mais jovens: (younger adults) e adultos mais velhos (older adults) foram encontradas diferenças, apontando vantagem dos adultos mais jovens com relação aos fatores psicológicos, cognitivos e experienciais. Evidências indicaram vantagens para os jovens adultos na velocidade de performance nas tarefas, acopladas com tendência à maior precisão na utilização dos recursos computacionais. No entanto, essas diferenças podem ser amenizadas com um treinamento extenso e mais exercícios pelos adultos mais velhos. É importante destacar que alguns adultos mais velhos têm habilidades e potencialidades próprias que os colocam em melhores condições do que outros.

Outro estudo (Echt, Morrel and Park, 1998) comparou dois grupos: jovens idosos (young-old) (60 - 74 anos) e idosos velhos (old-old) (75 - 89) e extraiu dados sobre as condições para adquirir e reter habilidades básicas sobre o computador. Ambos os grupos passaram por um treinamento sobre os procedimentos básicos de Informática, por meio da interação com um programa multimídia (CD-ROM) ou manual ilustrado. A avaliação foi feita imediatamente depois do treinamento e repetida, após uma semana. Os resultados apontaram que os jovens idosos em relação aos idosos velhos:

  • tiveram menos erros na performance e coordenação motora;

  • requisitaram menos assistência/ajuda

  • levaram menos tempo no treinamento.

Ambos os grupos tiveram alguns esquecimentos pontuais sobre os recursos do computador e como executá-los.
A análise dos testes mostrou que o idoso que apresenta melhor rendimento na memória espacial e verbal tem melhores condições e maior probabilidade para adquirir habilidades no domínio do computador.
Outras dificuldades foram detectadas em pesquisa (Hendrix, 2000):

  • limitações cognitivas relacionadas com a memória;

  • limitação visual e auditiva

  • dificuldade de mobilidade/flexibilidade para mudanças.

    Outras pesquisas abordam o estado de ansiedade gerado na relação com o computador pelas pessoas com mais idade. Laguna e Babcock (1997), em revisão de área sobre esta questão, consultando artigos de 1984 a 1992, descobriram resultados diferentes e ambíguos na análise do estado de ansiedade com o computador na variação de idade entre adultos mais jovens (younger adults) e adultos mais velhos (older adults). Alguns resultados indicam que os adultos mais velhos têm atitude menos positiva frente às tecnologias do computador do que os adultos mais jovens; outros estudos mostram que, geralmente, os idosos apresentam atitudes positivas com relação ao computador. Um outro, com adultos mais idosos, não detectou relação significativa entre atitudes e performance com o computador nas tarefas com o processador de textos.

    Benefícios da tecnologia computacional para a terceira idade

    As pesquisas neste campo têm desvendado e desmascarado estereótipos sobre a incompetência dos adultos mais velhos (older adult), mostrando que eles podem aprender a usar o computador, mas necessitam de aproximadamente o dobro do tempo que os adultos mais jovens (younger adult). Os idosos apresentam atitudes de aproximação e interesse com relação ao computador decorrentes das experiências positivas na aprendizagem e domínio da máquina (Baldi, 1997).

    Mudanças de atitudes em relação ao computador surgem depois dos cursos em decorrência de os participantes se sentirem:

    • mais familiarizados com a terminologia e a linguagem do computador;
    • menos excluídos dos progressos tecnológicos da sociedade;
    • menos apreensivos sobre o uso do computador e mais confiantes com as próprias habilidades para entender a máquina.

    Muitos idosos vêem a tecnologia computacional favoravelmente e acreditam nos benefícios da aquisição de habilidades básicas para dominar o computador (Morris, 1994).

    Computadores e tecnologias da comunicação oferecem um potencial de melhorar a qualidade de vida da pessoa na terceira idade, provendo-a com as informações e serviços externos a sua residência. Esse tipo de benefício vem contribuir para facilitar a vida das pessoas que têm dificuldade ou dependem de outros para se deslocarem.

    Numa pesquisa (Czaja et al., 1993) com 36 mulheres da faixa etária entre 50 e 95 anos, foi disponibilizado nas casas um editor de textos simples, um e-mail e acesso a informações sobre notícias e o tempo, cinemas e orientações sobre saúde. Os resultados mostraram que as dificuldades de uso foram mínimas e o computador foi útil na vida da população idosa, promovendo a interação social e a estimulação mental.

    O único livro encontrado sobre terceira idade e Informática que foi escrito por quem viveu os benefícios da apropriação da tecnologia, na plena condição intelectual dos seus 80 anos. "Informática na Terceira idade", escrito por Gilson Nascimento (2000), disserta sobre seu primeiro contato com a máquina, aos quase 78 anos de idade, e os caminhos e descaminhos ao trilhar por este universo, ressaltando a alegria e o prazer de aprender e desvendar um novo mundo. O autor substituiu a velha máquina elétrica (que havia substituído a máquina de escrever mecânica) pelo computador. Ele descreve com um toque de humor sua experiência e os resultados advindos da companhia e amizade estabelecida com o computador, apresentando os recursos e as possibilidades de sua utilização, objetivando informar e auxiliar o leitor da maturidade numa empreitada deste gênero.

    Mas, plenamente satisfeito com a feliz idéia de tê-lo adotado, venho trazer, numa linguagem quase despida, na medida do possível, de vocábulos técnicos, mas respingada de saudosismo, de poesia e de humor, visando sobretudo às pessoas de minha faixa etária, a mensagem da coragem a se adaptar ao avanço tecnológico, tendo-se em mente que nunca é tarde demais para a aquisição de novos conhecimentos (Nascimento, 2000, prefácio).

    Jornal eletrônico da terceira idade

    Uma experiência interessante com tecnologia e terceira idade é a publicação eletrônica do grupo Melrose Silver Stringers. Um grupo de aproximadamente 25 pessoas idosas produz um jornal on-line com o nome de The Melrose Mirror , no estado de Massachusetts (Driscoll et al., 1997). Um jornalismo comunitário desenvolvido com a sabedoria dos aposentados e com a tecnologia adaptada às suas necessidades.

    A equipe é composta por pessoas da comunidade que foram preparadas por pesquisadores do MIT - Massachusetts Institute of Technology, Media Laboratory , para construir o espaço do jornal eletrônico com publicações de autoria como poemas, dicas de viagens, calendário de eventos e palavras cruzadas etc. O jornal reflete uma comunidade dentro de outra comunidade, gerando mudanças e transformações nas pessoas envolvidas no projeto.
    Uma característica importante é a autonomia do grupo, pois o jornal é produzido e coordenado pelas pessoas da terceira idade, que definem e decidem o encaminhamento das proposições e dos objetivos a serem alcançados. Não há um líder permanente, a cada duas semanas uma pessoa do grupo é designada para a responsabilidade de coordenação para manter os participantes envolvidos no foco dos objetivos. Cada participante faz um pouco de tudo, alternando papéis no grupo como repórter, redator e editor, e todos atuam na produção e aprimoramento do jornal eletrônico.O Silver Stringer tem sido um meio de informação e de comunicação, que contribui para a ampliação das relações e o intercâmbio entre os idosos e o mundo.

    O grupo viu surgir no horizonte a possibilidade de explorar o mundo, de conhecer novas pessoas com quem trocar informações e idéias, assim como um desafio para se expressar. Eles querem ser parte do mundo e poder alcançar o espaço cibernético. Com sua sabedoria de vida, eles querem ter habilidade de saber usar a tecnologia atual e futura para se manterem em contato com o mundo e para contribuir com sua experiência de vida (Driscoll et al., 1997: 4).

    Uma outra experiência com similaridade de objetivos é o Jornal Compuctador, um trabalho coordenado e desenvolvido por nós, juntamente com uma equipe formada pelas alunas da Universidade Aberta para a Maturidade da PUCSP. Este tem se constituído num espaço de voz e vez para os alunos da terceira idade, através de uma publicação impressa e digital com diversos formatos de textos, todos produzidos pelos alunos: crônicas, poesias, artigos, entrevistas, resenhas e memórias. O jornal surgiu de um projeto nas nossas aulas de informática, com o objetivo de ativar a produção intelectual, construir uma imagem de um novo idoso e possibilitar o exercício da cidadania (Kachar, 2001a, 2001b).

    Algumas considerações sobre a Informática e a terceira idade

    Ocorre aumento considerável de usuários do computador, o idoso não poder ficar excluído deste universo. É importante criar condições para que o idoso possa ter acesso ao computador, sua linguagem e aos seus recursos. Construir estratégias metodológicas educacionais para preparar a população da terceira idade (ativa ou aposentada) no domínio operacional das ferramentas computacionais, gerar a alfabetização na nova linguagem tecnológica que se instala em todos os setores da sociedade e inserir o idoso nas transformações da sociedade.

    Os estudos mostram que existem diferenças entre as faixas etárias na forma da apropriação e no domínio da habilidade operacional do computador. Estudos que comparam jovens, adultos e idosos na interação com a máquina apontam a importância do dimensionamento de estratégias de ensino e aprendizagem delineadas de acordo com as características e condições da população, respeitando o ritmo e tempo para aprender, as limitações físicas (auditivas, visuais) e cognitivas (memória, atenção) etc.

    Foram observados alguns benefícios da tecnologia para este grupo etário, como melhorar as condições de interação social e estimular a atividade mental. O computador tem utilidade e pode trazer mudanças significativas para as pessoas com mais idade. A aprendizagem sobre o computador pode gerar para as pessoas idosas maior confiança e manejo com a informatização de um modo geral. Há transferência para lidar com a tecnologia em outros locais como, caixas eletrônicos, leitura ótica em lojas e supermercados etc, e transitar na nova cidade real e virtual que está se configurando na vida urbana.

    As pesquisas destacam que o idoso tem interesse e possibilidade de conseguir domínio básico do computador. A aplicação tem sido mais para uso pessoal, distração, entretenimento e ocupação do tempo ou, mesmo, para resolver situações domésticas com a máquina, como gerenciar finanças. A tecnologia tem permitido a comunicação com outras pessoas como parentes que moram distantes e acesso às informações e às atualidades, incluindo-o no movimento de transformação social.

    Bibliografia

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    NASCIMENTO, Gilson. Informática na Terceira Idade: um guia bem humorado para quem quer aprender informática depois dos 60 anos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Brasport, 2000.
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